5/30/2006

NEUROSE

O hóspede mais espaçoso de sua cabeça era a neurose. Não atravessava a rua sem olhar para os dois lados, mas ao mesmo tempo não conseguia tirar os olhos do chão. Sabia que as pessoas eram cruéis demais, capazes de roubar seu próprio passo. Em vez de tentar mudar o mundo, sua ideologia era fugir dele. Pensava apenas na própria salvação, se afogando em preconceitos para ser resgatada pelo vazio da solidão.
Não julgava os outros pelo que eram, mas pelo potencial que tinham de lhe fazer mal a qualquer momento, se quisessem. Esquecia sempre que lá no fundo, todo mundo tem um lado bom. Não tinha amizades. Não podia acreditar nelas. Quanto mais próximas as pessoas ficam, mais vulneráveis se mostram.
Não saía de casa depois de escurecer, nem depois do sol nascer. Medo de ver o mundo com clareza e da falta de certeza que a escuridão mostrava. Lia os jornais acreditando que cada fatalidade que havia acontecido uma vez, se repetiria a qualquer minuto e a cada esquina. Na sua, principalmente.
Seu gênero favorito de filmes era o documentário - não que fosse ao cinema... ficou com medo depois de ler um tal e-mail sobre agulhas contaminadas deixadas nas poltronas. Mas os documentários mostravam exatamente como a vida é: cheia de acontecimentos trágicos. Já os de terror, não faziam sentido: a vida real dava muito mais medo.
Com filtro solar e um comprimido de vitamina C duas vezes ao dia, se protegia também do próprio corpo. Todos queriam seu mal, inclusive ela mesma.
Sem amigos e restrita a um quarto-sala nada espaçoso e cheio de grades nas janelas, viveu longe do mundo que criou na própria cabeça. Com tanto tempo pensando nos perigos ao seu redor, passou a vida inteira sem conseguir aproveitar a parte boa que faz todos os perigos valeram a pena.

5/29/2006

PAÍS DAS MARAVILHAS

As mentes estão muito poluída hoje em dia. A minha, pelo menos, eu sei que está. Suja de lembranças e histórias vividas ou simplesmente ouvidas. Histórias ruins, em sua maioria, já que as boas nós só guardamos com carinho, mas raramente as usamos como referência.
Ao olhar uma situação, dou uma busca em minha mente e vejo como devo proceder. São regras e estratégias criadas pela minha péssima vivência. Só não paro pra pensar que em vez de aprender com o que deu errado, devo aprender com o que deu certo. Ou não. Cada caso é um caso. O que deu errado numa situação pode ser perfeito para outra.
Na verdade, o melhor mesmo é não saber nada. A inexperiência dá coragem e não deixa o medo se aproximar. Só quem nunca levou um choque se arrisca a colocar o dedo na tomada. Quero voltar á minha ignorante inocência. Mas quero que o mundo todo me acompanhe. Sozinha não teria graça. Seria corrompida novamente e rapidamente.
Não posso mais lembrar das minhas primeiras vezes. Não consigo resgatar os sentimentos que tive, até porque não tenho mais nenhum hoje em dia. Ficou tudo tão batido, tão cotidiano, que já não me emociona mais. Com esse antiquário cheio de quinquilharias na minha cabeça, fica difícil achar algo que eu não tenha visto, que ainda me surpreenda por mais do que alguns segundos.
Meu consolo é a esclerose. Depois de muito treino, hoje já não consigo mais lembrar de finais de filmes e histórias sem muita importância. Mas um dia eu vou conseguir esquecer muito mais. Ao rever álbuns de fotografia, vou achar tudo novo de novo. Toda vez, vai ser a primeira de várias e, mesmo assim, vai continuar sendo também a única.

5/23/2006

GAROA DE CHUMBO

São Paulo há muito tempo é conhecida pelo caos urbano. Engarrafamentos, trabalho 24h, almas vagando dentro de corpos ocupados. Mas nunca se imaginou que esta cidade poderia ficar ainda pior. Ruas vazias, comércio fechado, nenhuma viva alma nas ruas.
Nesta época de faroeste, bandidos e mocinhos vêm se enfrentando diariamente. O problema é que nem eles mesmos sabem mais em qual categoria se enquadram. Um caso complicado, tanto de resolver, quanto de entender.
A polícia sempre trabalhou duro pra corromper sua imagem e incentivar o crime. Sim, peço licença pra generalizar. Por isso acabou sendo vista também como bandidos. Mas na última semana, voltou a ocupar seu espaço de mocinho, aquele personagem frágil que sofre as injustiças do mundo. Policiais foram brutalmente atacados por outros bandidos. Os assumidos. A mídia do mundo todo se comoveu. Eu também me comovi. Mas por pouco tempo. Quem sobreviveu se aproveitou da benevolência da vingança para formar grupos de extermínio. Seja por ódio, ou simplesmente pra treinar a mira em alvos móveis.
E foi assim que os bandidos viraram mocinhos. Se infiltraram no bolo dos inocentes que estão morrendo, como quem se disfarça no meio de uma multidão. As pessoas não sabem separar e acham que morador da periferia é um bloco só: ora culpados, ora inocentes. Mais uma vez generalizando, os que estão morrendo são inocentes, então todos são inocentes injustiçados. Os verdadeiros culpados pela matança inicial estão por aí, curtindo um Jornal nacional recheado de sangue fresquinho. A vida já não tem mais valor. Enquanto isso, a opinião pública está se levantando em prol dos fracos e oprimidos.
Confuso. Muito confuso. Ninguém mais sabe pra quem torcer. A verdade é que nesta guerra, ninguém mais sabe nem quem é quem. Como numa boa partida de futebol, policiais e bandidos deveriam usar camisas de cores específicas pra diferenciar. Deve ser por isso mesmo que existe a farda. De um lado do campo, os bandidos que estão virando mocinhos. Do outro, os mocinhos que já viraram bandidos há muito tempo. No meio, a população inocente sendo baleada no fogo cruzado.

5/19/2006

PASSADO NO FUTURO

É fácil contar sua história depois que a vida foi vivida. Pra mim, sempre foi diferente. Nunca vivi. Minhas histórias, eu contava antes mesmo de terem ocupado seu espaço real naquilo que todo mundo adora chamar de tempo. Mas de tão vivas que estavam na minha imaginação, acabaram realmente fazendo parte de mim. Do que sou. Pra que mais serve uma história, além de formar uma pessoa? Pois bem. Eu não estava lá. Mas elas sempre estiveram comigo.

Aqui vai uma delas. Um dia, quando eu tiver oitenta anos, mais ou menos, aconteceu algo incrível. Eu estava no fim da vida quando vi minha primeira estrela cadente. Até então, nenhuma nunca havia aparecido pra mim, como se eu não merecesse o pedido que ela poderia me oferecer. Mas esta foi diferente. Eu não a procurei. Não passei horas olhando pro céu, catando um astro em queda. Ela fez questão de me ver. Ao cair, se segurou em minha a janela, como se implorasse pra ser vista. Fiz meu pedido. Quando eu tiver oitenta anos, ele vai ser atendido.

Outro acontecimento foi quando eu tiver meus quarenta anos. Até lá, já existiam vôos freqüentes e a baixo custo até a lua. Fui por uma companhia mais barata, sem serviço de bordo. É o preço que se paga pela economia. Colhi maçãs enormes. Uma refeição completa. Tudo era mais colorido. A música se alastrava por todo o ambiente. Lá, todos começaram a pensar de outra forma. Amor livre, desapego aos bens materiais, felicidade constante. Na volta, a normalidade voltou junto. Aparentemente, é culpa da gravidade sermos tão chatos.

Melhor, só quando eu fui pra Atlântida, o tal paraíso perdido. Eu vou ter sessenta anos, mais ou menos. Pena que quando cheguei lá, já tinha sido abandonado de novo. Mas dessa vez, foram os responsáveis pela manutenção. Tanto tempo procurando o lugar e, quando acham, só o idolatram durante a febre inicial. Estava às moscas e era pertinho aqui de casa. Parece que sempre procuraram no continente errado. Os políticos já sabiam há muito tempo, mas estavam esperando valorizar. Essa mania de especulação imobiliária.

Agora, se você me pedir pra contar as histórias mais atuais, sinto muito mas não vou poder. Não imagino nada acontecendo na minha vida nos próximos nem nos últimos minutos. Minha vida vivida é a que vou viver. Ela parece bem real na minha cabeça. Bem mais do que qualquer cartão postal possa mostrar. Meu futuro é o meu passado e é também o que me faz ser no momento. O passado real, prefiro esquecer. Ele nunca me ajudou em nada.

5/16/2006

CONTRA A PAREDE

Sempre teve uma boa vida. Fazia o que queria com a liberdade de quem sempre tem razão. Construiu uma carreira sólida, uma família completa e, principalmente, a imagem que mais lhe agradava.

Aproveitou todas as fases até que, um belo dia, acordou aprisionado. Não era numa cadeia, hospital ou asilo. Literalmente, estava paralisado e enquadrado entre quatro ripas de madeira entalhada que só deixavam à mostra seu busto. Foi emoldurado com sua melhor roupa, mas não estava com sua alma. Ela não conta quando o assunto é a imagem que tentamos expor para os outros no dia-a-dia. Do rosto, não conseguiu tirar a expressão altiva com a qual recebia sempre suas visitas.

Olhou em volta e viu que não era o único. Como ele, outros bustos sorriam placidamente exibindo suas jóias e patentes. Mais ao longe, estavam os outros estilos. Cada um querendo ser único em si, mas cheio de semelhanças quando classificados. As crianças com seus sonhos e imaginações de Dalí. Os adolescentes revoltados que não conseguiam colocar a própria cabeça no lugar eram cubistas Picassos. Os jovens adultos, vibrantes e cheios de espaços em branco eram Mirós. E vários outros grupos se empilhavam pelas paredes.

No museu, apenas alguns conseguiam passear livremente pelos corredores com seus braços e pernas, sem a prepotência de observador nem as preocupações de observado. Apenas olhavam aquelas vidas com atenção. Ora de perto para ver detalhes, ora de longe para ver como um todo. Não necessariamente entendiam. Mas alguns, até que admiravam. E sempre respeitando a ordem dos seguranças de nunca tocar ou se aproximar.

5/12/2006

ACIDENTE

Enquanto todos morrem de medo de viver na ponta do abismo, eu te grito lá de baixo: “Pula! Pula! Pula!”. Pode pular. Eu cheguei aqui primeiro e sobrevivi. Na sua vinda, prometo ainda te segurar. Você não vai se machucar, pode confiar em mim. A não ser que, no meio do caminho, você resolva mudar de direção. Aí não garanto nada. É bom se concentrar.
Durante anos você ficou ali, se agarrando com a ponta dos seus dedos. Cansado, desesperado para voltar lá pra cima. Sempre disseram pra não olhar pra baixo porque dava medo. E dá mesmo, acredite. O mesmo medo que você sente ao entrar pela primeira vez no mar. Você não sabe o que esperar, perde o controle da situação e não pára pra pensar como pode ser bom se deixar levar. Os equilibristas nunca olham pra baixo com medo de cair. Mas o desequilíbrio pode ser uma forma do seu corpo te avisar que lá embaixo pode ser bem mais divertido.
Deixa cair. A gravidade e o tempo vão te jogar de qualquer forma. Mas o momento pode nunca mais ser tão bom quanto este. Vem dançar comigo aqui embaixo. A gente nem precisa saber todos os passos. Não precisa de nenhum, na verdade. É só deixar o nosso corpo dar o ritmo. Adorei seguir o ritmo do seu. Um dois pra lá, dois pra cá nunca foi tão completo. Pelo menos foi o que meu corpo sentiu: pulos e piruetas a cada movimento.
Então pula! Mas pula rápido. Aqui embaixo tem outro abismo e estou cansada de me segurar sem o apoio das suas mãos. Se você não pular logo, juro que eu pulo!

5/11/2006

ÚLTIMO DESEJO

Conheceu a morte muito cedo. Desde então não quis saber de mais ninguém. Vivia seus dias pensando que estaria cada vez mais perto dela. Não era um amor impossível. Bastava esquecer de tudo e esperar. Dias, anos e quem sabe, com sorte, apenas alguns minutos para ir ao seu encontro.

Até pensou em várias formas de antecipar este momento. Mas tirar a própria vida seria forçar a barra. Não por medo, mas por orgulho. Podia parecer muito oferecido. Teria que ser do jeito dela e esperar virou uma prática masoquista. Parou de ver graça no sol, nas estrelas, no mar, nas crianças. Era tudo apenas uma distração para o tempo passar mais rápido. “Nada é pra sempre. Um dia ela virá me visitar também”. Era amor, paixão e adoração. Nunca usava roupas sujas ou rasgadas com medo de encontrá-la em alguma esquina.

Na flor que murchava, no dia que se ia, nas colunas de obituário: tudo era um sinal de sua presença. Adorava seu jeito de trabalhar. A cada manchete sangrenta que lia, admirava seu talento e criatividade para atuar de diferentes formas. Queria estar à sua altura e ter boas histórias pra contar. Quem tira a vida, deve delirar com bons causos sobre que a viveu. Passou a ter dias intensos. Viajou, leu, bebeu. Mas quando amou outras mulheres, a velha paixão dava as caras, furiosa. Percebeu que a morte também era ciumenta.

Parou de amar, odiar ou nutrir qualquer sentimento. De tanto pensar na feliz fatalidade, esqueceu de amar sua vida. Separou-se do resto da família que ainda sobrava. Também não queria trabalhar. Dinheiro só servia para criar laços onde não queria ficar.

A cada parente ou amigo que se ia, ele morria de ciúmes. Pena que era só no sentido figurado. Os arranjos que levava ao cemitério normalmente não eram para os falecidos. Era o jogo da conquista. Toda dama adora receber flores.

Neste ritmo, a vida foi lenta e lamentavelmente passando. Aos 108 anos continua esperando. Infelizmente, nem sempre nossos amores são retribuídos.

5/09/2006

AGONIA DEBAIXO DA TERRA – PARTE 2

Apesar de achar mulher naturalmente chata (salvas exceções, que são as minhas amigas), como passa-tempo do vagão especial, resolvi fazer um estudo antropológico.
Constatação nº1: mulheres também são mal-educadas. Elas também empurram com toda a força pra poder se encaixar num lugarzinho melhor. Uma me empurrou.
Constatação nº 2: mulheres são vingativas. Sabe a que me empurrou? Logo depois tive a oportunidade amplamente aproveitada de empurrá-la de volta. Foi uma alegria!
Constatação nº 3: mulheres não pensam em novas alternativas. Quem busca um vagão especial pra fugir das famosas sarradas dos homens tarados, tem que pensar nas outras opções. Por exemplo: e as lésbicas? Posso jurar que tinha uma bem atrás de mim. Com a mão no meu bumbum, mais exatamente! Fui abusada da mesma forma.
Constatação nº4: depois de tanta luta por direitos iguais, quanta regressão. É um absurdo. Basicamente este vagão especial divide as mulheres em duas classes: as que querem se preservar e as pervertidas que se misturam nos vagões cheios de homens. E ai de quem for de saia!
Constatação nº5: odeio lugar cheio de mulheres. Uma ficava dizendo “unidas venceremos” enquanto outras entravam e se esmagavam. Preferia não estar tão unida a elas assim.

AGONIA DEBAIXO DA TERRA – PARTE 1

Entrei no vagão especial para mulheres do metrô. Juro que foi sem querer. Quando vi, estava lá, rodeada pelo sexo tão frágil, que precisou desta discriminação extra. Então, já que passei por esta experiência, aqui vai o meu relato.
O metrô estava mais cheio do que o normal. No alto-falante da estação, um funcionário despreocupado alertava: “especialmente hoje o metrô vai operar sem a ajuda de carros extras”. Traduzindo: se prepara, malandro, porque vai estar lotado. Pensei em sair e pegar um ônibus, mas já tinha gastado os meus últimos trocados no bilhete do metrô. Os dez centavos restantes não me levariam a lugar nenhum.
Primeiro parei na porta de um vagão bem cheio. Olhei pra cima e vi a faixa de que aquele era especial para mulheres. Pulei pra porta do lado sem ver que o vagão era o mesmo. Distraída como sou, só fui perceber onde tinha me metido algumas estações depois. Foi mais exatamente quando ouvi uma mulher dizendo orgulhosa “pelo menos aqui só tem mulher”. Olhei em volta. Realmente, nunca tinha visto tanta mulher junta. Fiquei revoltada. Eu gosto de homens e nunca gostei de lugares com muitas mulheres. Odeio shoppings em promoção, sala de espera de ginecologista e nunca, jamais, em hipótese alguma freqüentaria o camarim do Wando.
O mundo foi criado assim: homens e mulheres convivendo na mais perfeita harmonia. As últimas gerações lutaram tanto por uma igualdade e agora vem alguém e faz isso. Deve ter sido homem.
Mas o pior de tudo não é a discriminação de ter um vagão separado. É ser discriminada por não andar nele. E agora? Se eu entrar no misto sozinha, na verdade estou querendo dizer “adoro ser sarrada”? Vou virar a tarada do lotação. Nem protestar eu posso. Só me resta não andar mais de metrô. A verdade é que, depois de ceder meu lugar para gestantes, idosos e deficientes físicos, sinto que perdi meu espaço pro preconceito.

5/04/2006

AUTOBIOGRAFIA DA VIDA NÃO VIVIDA

Eu não estou louca. Minha história faz todo sentido. Pelo menos na minha cabeça, faz. Mas agora que cheguei ao fim, fica difícil voltar ao começo. Não é que o caminho seja longo. Na verdade, é justamente o contrário. É tão curto que dá até desânimo de ver quanta história deixei de ter para poder contar com grande entusiasmo por aqui.
Mas vou tentar. Tudo começou com as convulsões de parto que senti no momento em que a rotina tomava conta da minha vida. Naquele momento, botei pra fora tudo que havia me segurado até então. Teve muito choro, gritos. Tudo isso é natural num processo destes. E quase nunca eles são seus. Particularmente, senti o mais sereno alívio. Aquilo sim estava certo. Mas as pessoas ao redor nunca entendem. “Você só pode estar fazendo isso pra chamar a atenção”. “Brigou com o namorado?”. “Eu sabia que as drogas um dia iam acabar com você”. Depois de tantas acusações você ainda tenta explicar. Até que desiste e resolve deixar as pessoas também pra trás. Elas nunca fizeram falta mesmo.
Naquele momento, minha vida havia acabado de começar. Na certidão de nascimento, o nome da mãe era revolta e o do pai, desespero. Não vou ser batizada. Nunca gostei de ser guiada por nada, muito menos por uma religião que nunca entendi. Se padres acreditam naquele papo de pecado, como fizeram numa boa a Santa Inquisição??? Larguei a Igreja no momento em que comecei a aprender história.
Casei na infância. Vivi no conto de príncipes e castelos. Só que no caso, a princesa lavava louça. Na adolescência, fiz carreira. Só pensava em ganhar dinheiro e conquistar o mundo, mas não necessariamente nesta ordem. O auge de energia e irresponsabilidade da minha vida catalisada para a ótima causa que era eu mesma. Minha velhice foi cheia de momentos onde joguei bolinha de gude, brinquei de pique-pega e fiz todas as besteiras escondida das várias mães que ganhei no caminho.
Se eu tivesse a quem contar a minha vida, seria exatamente assim. A ordem cronológica só serve para atrapalhar os fatos.

5/01/2006

TÉCNICAS DE RELAXAMENTO

Feche os olhos... Imagine uma praia linda. Ondas baixas, mar azul, água morna, peixes coloridos. Na areia, uma toalha de piquenique com todos os tipos de comidas e bebidas. Só você e a pessoa que você levaria para uma ilha deserta, além de crianças lindas e saudáveis tocando harpas e violinos para o seu deleite. O clima está agradável. O cheiro é o do mar com flores.

Agora abra os olhos e encare a realidade. Por trás dos muros que ergueram para sua proteção, crianças subnutridas roubam, mendigam, se prostituem, traficam e morrem. Tudo por um pouco de cola ou um prato de comida; o que for mais barato. Ainda mais perto, você vai ver a violência invadindo as ruas. Trocas de tiros com culpados e inocentes morrendo à bala.

Olhe um pouco mais longe e veja os políticos que elegemos seguem suas rotinas nos castigando pela péssima escolha. Não sentem culpa pela situação porque conseguiram criar um universo paralelo em suas mansões. Estão sempre de olhos fechados para o resto da sociedade. Talvez não devêssemos ficar tão longe assim deles. É bem mais difícil danar alguém que está olhando em nossos olhos.

E com isso muitas pessoas continuam sem estudo, casa, família, comida. Moram nas ruas. Passam calor de dia e frio de noite. Crianças, adolescentes, adultos e idosos: não importa a idade, a sensação da desgraça que sentem na pouca carne que ainda têm é sempre a mesma.

Esta é a hora em que você escolhe: quer continuar fechando os olhos à realidade e relaxar com o mundo ao seu redor?