5/11/2006

ÚLTIMO DESEJO

Conheceu a morte muito cedo. Desde então não quis saber de mais ninguém. Vivia seus dias pensando que estaria cada vez mais perto dela. Não era um amor impossível. Bastava esquecer de tudo e esperar. Dias, anos e quem sabe, com sorte, apenas alguns minutos para ir ao seu encontro.

Até pensou em várias formas de antecipar este momento. Mas tirar a própria vida seria forçar a barra. Não por medo, mas por orgulho. Podia parecer muito oferecido. Teria que ser do jeito dela e esperar virou uma prática masoquista. Parou de ver graça no sol, nas estrelas, no mar, nas crianças. Era tudo apenas uma distração para o tempo passar mais rápido. “Nada é pra sempre. Um dia ela virá me visitar também”. Era amor, paixão e adoração. Nunca usava roupas sujas ou rasgadas com medo de encontrá-la em alguma esquina.

Na flor que murchava, no dia que se ia, nas colunas de obituário: tudo era um sinal de sua presença. Adorava seu jeito de trabalhar. A cada manchete sangrenta que lia, admirava seu talento e criatividade para atuar de diferentes formas. Queria estar à sua altura e ter boas histórias pra contar. Quem tira a vida, deve delirar com bons causos sobre que a viveu. Passou a ter dias intensos. Viajou, leu, bebeu. Mas quando amou outras mulheres, a velha paixão dava as caras, furiosa. Percebeu que a morte também era ciumenta.

Parou de amar, odiar ou nutrir qualquer sentimento. De tanto pensar na feliz fatalidade, esqueceu de amar sua vida. Separou-se do resto da família que ainda sobrava. Também não queria trabalhar. Dinheiro só servia para criar laços onde não queria ficar.

A cada parente ou amigo que se ia, ele morria de ciúmes. Pena que era só no sentido figurado. Os arranjos que levava ao cemitério normalmente não eram para os falecidos. Era o jogo da conquista. Toda dama adora receber flores.

Neste ritmo, a vida foi lenta e lamentavelmente passando. Aos 108 anos continua esperando. Infelizmente, nem sempre nossos amores são retribuídos.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Impressionante como você consegue escrever sobre assuntos que desconhece totalmente com uma intimidade avassaladora. Aposto que o Mainardi se apaixonaria por uma jovem escritora tão talentosa se ele enxergasse além da maquininha de refrigerantes...

11:17 PM  

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