5/09/2006

AGONIA DEBAIXO DA TERRA – PARTE 1

Entrei no vagão especial para mulheres do metrô. Juro que foi sem querer. Quando vi, estava lá, rodeada pelo sexo tão frágil, que precisou desta discriminação extra. Então, já que passei por esta experiência, aqui vai o meu relato.
O metrô estava mais cheio do que o normal. No alto-falante da estação, um funcionário despreocupado alertava: “especialmente hoje o metrô vai operar sem a ajuda de carros extras”. Traduzindo: se prepara, malandro, porque vai estar lotado. Pensei em sair e pegar um ônibus, mas já tinha gastado os meus últimos trocados no bilhete do metrô. Os dez centavos restantes não me levariam a lugar nenhum.
Primeiro parei na porta de um vagão bem cheio. Olhei pra cima e vi a faixa de que aquele era especial para mulheres. Pulei pra porta do lado sem ver que o vagão era o mesmo. Distraída como sou, só fui perceber onde tinha me metido algumas estações depois. Foi mais exatamente quando ouvi uma mulher dizendo orgulhosa “pelo menos aqui só tem mulher”. Olhei em volta. Realmente, nunca tinha visto tanta mulher junta. Fiquei revoltada. Eu gosto de homens e nunca gostei de lugares com muitas mulheres. Odeio shoppings em promoção, sala de espera de ginecologista e nunca, jamais, em hipótese alguma freqüentaria o camarim do Wando.
O mundo foi criado assim: homens e mulheres convivendo na mais perfeita harmonia. As últimas gerações lutaram tanto por uma igualdade e agora vem alguém e faz isso. Deve ter sido homem.
Mas o pior de tudo não é a discriminação de ter um vagão separado. É ser discriminada por não andar nele. E agora? Se eu entrar no misto sozinha, na verdade estou querendo dizer “adoro ser sarrada”? Vou virar a tarada do lotação. Nem protestar eu posso. Só me resta não andar mais de metrô. A verdade é que, depois de ceder meu lugar para gestantes, idosos e deficientes físicos, sinto que perdi meu espaço pro preconceito.