5/19/2006

PASSADO NO FUTURO

É fácil contar sua história depois que a vida foi vivida. Pra mim, sempre foi diferente. Nunca vivi. Minhas histórias, eu contava antes mesmo de terem ocupado seu espaço real naquilo que todo mundo adora chamar de tempo. Mas de tão vivas que estavam na minha imaginação, acabaram realmente fazendo parte de mim. Do que sou. Pra que mais serve uma história, além de formar uma pessoa? Pois bem. Eu não estava lá. Mas elas sempre estiveram comigo.

Aqui vai uma delas. Um dia, quando eu tiver oitenta anos, mais ou menos, aconteceu algo incrível. Eu estava no fim da vida quando vi minha primeira estrela cadente. Até então, nenhuma nunca havia aparecido pra mim, como se eu não merecesse o pedido que ela poderia me oferecer. Mas esta foi diferente. Eu não a procurei. Não passei horas olhando pro céu, catando um astro em queda. Ela fez questão de me ver. Ao cair, se segurou em minha a janela, como se implorasse pra ser vista. Fiz meu pedido. Quando eu tiver oitenta anos, ele vai ser atendido.

Outro acontecimento foi quando eu tiver meus quarenta anos. Até lá, já existiam vôos freqüentes e a baixo custo até a lua. Fui por uma companhia mais barata, sem serviço de bordo. É o preço que se paga pela economia. Colhi maçãs enormes. Uma refeição completa. Tudo era mais colorido. A música se alastrava por todo o ambiente. Lá, todos começaram a pensar de outra forma. Amor livre, desapego aos bens materiais, felicidade constante. Na volta, a normalidade voltou junto. Aparentemente, é culpa da gravidade sermos tão chatos.

Melhor, só quando eu fui pra Atlântida, o tal paraíso perdido. Eu vou ter sessenta anos, mais ou menos. Pena que quando cheguei lá, já tinha sido abandonado de novo. Mas dessa vez, foram os responsáveis pela manutenção. Tanto tempo procurando o lugar e, quando acham, só o idolatram durante a febre inicial. Estava às moscas e era pertinho aqui de casa. Parece que sempre procuraram no continente errado. Os políticos já sabiam há muito tempo, mas estavam esperando valorizar. Essa mania de especulação imobiliária.

Agora, se você me pedir pra contar as histórias mais atuais, sinto muito mas não vou poder. Não imagino nada acontecendo na minha vida nos próximos nem nos últimos minutos. Minha vida vivida é a que vou viver. Ela parece bem real na minha cabeça. Bem mais do que qualquer cartão postal possa mostrar. Meu futuro é o meu passado e é também o que me faz ser no momento. O passado real, prefiro esquecer. Ele nunca me ajudou em nada.