CONTRA A PAREDE
Sempre teve uma boa vida. Fazia o que queria com a liberdade de quem sempre tem razão. Construiu uma carreira sólida, uma família completa e, principalmente, a imagem que mais lhe agradava.
Aproveitou todas as fases até que, um belo dia, acordou aprisionado. Não era numa cadeia, hospital ou asilo. Literalmente, estava paralisado e enquadrado entre quatro ripas de madeira entalhada que só deixavam à mostra seu busto. Foi emoldurado com sua melhor roupa, mas não estava com sua alma. Ela não conta quando o assunto é a imagem que tentamos expor para os outros no dia-a-dia. Do rosto, não conseguiu tirar a expressão altiva com a qual recebia sempre suas visitas.
Olhou em volta e viu que não era o único. Como ele, outros bustos sorriam placidamente exibindo suas jóias e patentes. Mais ao longe, estavam os outros estilos. Cada um querendo ser único em si, mas cheio de semelhanças quando classificados. As crianças com seus sonhos e imaginações de Dalí. Os adolescentes revoltados que não conseguiam colocar a própria cabeça no lugar eram cubistas Picassos. Os jovens adultos, vibrantes e cheios de espaços em branco eram Mirós. E vários outros grupos se empilhavam pelas paredes.
No museu, apenas alguns conseguiam passear livremente pelos corredores com seus braços e pernas, sem a prepotência de observador nem as preocupações de observado. Apenas olhavam aquelas vidas com atenção. Ora de perto para ver detalhes, ora de longe para ver como um todo. Não necessariamente entendiam. Mas alguns, até que admiravam. E sempre respeitando a ordem dos seguranças de nunca tocar ou se aproximar.

1 Comments:
...e nem tirar foto.
belíssimo texto.
bjs
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