6/17/2006

obs.

Dois palmos. Ninguém pode imaginar o quanto já coube entre estes mesmos dez dedos. Antes do primeiro toque, esta mesma distância parecia muito perto, capaz de transmitir toda a química, física, matemática e biologia entre dois corpos. Parecia realmente impossível caber qualquer outra coisa, senão nossos olhos. Mas hoje, convertendo para a escala de medição do silêncio e da frieza, trinta centímetros equivalem a muitos quilômetros. Espaço suficiente para caber todo o vazio que minha cabeça sente por não poder mais pensar em você. E ainda sobrou centímetro para a tensão do momento, dúvidas e inseguranças. Só não sobrou para o sentimento que um dia tivemos, por mais reduzido que ele estivesse naquele momento. Couberam também as histórias que vivemos com outras pessoas. E outras pessoas em si também entraram, dando a medida dos traumas que servem como preconceitos e obstáculos. Também adicionamos pratos favoritos, viagens que deixamos de fazer e filmes que teremos que ver com outras pessoas. Tudo que sempre coube perfeitamente entre nós se expandiu. Ganhou corpo e proporções próprias, até que parou de nos pertencer. Em vez de ficar rodeando o espaço entre nós, começou a bloquear a vista que tínhamos um do outro, até impedir que víssemos além do que juntamos. Uma pilha de tralhas, que nunca nos desfizemos por medo de um dia sentirmos falta. Dois palmos. Uma fortaleza não precisaria de mais espaço do que isso se tivesse sido construída por nós. É tudo uma questão de referencial. Para os medrosos, esta distância vai ser sempre uma grande proximidade. Mas pra nós que nunca ficamos separados por mais de um milímetro, dois palmos é uma distância que nunca mais teremos energias para percorrer de volta.

6/14/2006

CURTINHO

Abdiquei do direito de pensar por medo da ressaca causada pela insônia do momento seguinte. A partir de então, vivo com meus fragmentos. Pequenos pedaços de experiências que, juntas, formam a figura indecifrável que sou até pra mim mesma.
E sigo assim, tentando juntar mais peças para atuar, como num jogo de criança paciente. Só que, diferente desses seres que ainda têm a vida inteira pela frente, não sou muito escolada na arte de esperar. Desisto assim que a peça começa a não fazer sentido com as outras partes que estão guardadas numa caixa. Lembranças que mal conheço e pouco entendo.
Desde que comecei foi assim. O alívio imediato sempre me atraiu, cortando os problemas pela raiz enquanto deixava feridas escondidas sob uma superfície de casca grossa. Nada mais senti. Só que, quando a dor vai embora, deixamos de lembrar da sua causa. O alívio imediato é delicioso, mas não traz a cura. Com o tempo, o excesso de cortes acaba separando o que você foi do que você acabou se transformando. Uma forma desfragmentada e sem graça de vida.
Escrever autobiografia? Capítulos soltos que mais parecem piadas do que contos. A curta duração de meus eventos só mostra a falta de continuidade e paciência dos meus vários “eus” que se formaram. Uma personalidade para cada história. Um personagem para cada realidade. Tenho certeza de que nenhum deles aceitaria uma peça nova e perfeita surgindo entre eles. Eles teriam que admitir todas as suas falhas. Não. Uma peça longa e perfeita me faria jogar fora tudo que me transformou no que sou.
Se um prato se quebra, uma janela é estilhaçada pela bola de uma criança, o espelho se parte oferecendo sete anos de azar ou quando o santo de gesso se espatifa pelo chão: pego apenas um pedaço de cada e colo um no outro. Não necessariamente o melhor deles. Apenas a parte em que participei. É o meu mosaico mais imperfeito. Toda minha vida foi feita assim. Pedaços de pessoas que só tirei uma lasquinha.
Ando entre os cacos de histórias, me esforçando para separá-los de tudo que ainda vou encontrar. Com cuidado para eles não me cortarem ainda mais. Mas também cuidando para que as feridas nunca se esqueçam de quem as fez.