obs.
Dois palmos. Ninguém pode imaginar o quanto já coube entre estes mesmos dez dedos. Antes do primeiro toque, esta mesma distância parecia muito perto, capaz de transmitir toda a química, física, matemática e biologia entre dois corpos. Parecia realmente impossível caber qualquer outra coisa, senão nossos olhos. Mas hoje, convertendo para a escala de medição do silêncio e da frieza, trinta centímetros equivalem a muitos quilômetros. Espaço suficiente para caber todo o vazio que minha cabeça sente por não poder mais pensar em você. E ainda sobrou centímetro para a tensão do momento, dúvidas e inseguranças. Só não sobrou para o sentimento que um dia tivemos, por mais reduzido que ele estivesse naquele momento. Couberam também as histórias que vivemos com outras pessoas. E outras pessoas em si também entraram, dando a medida dos traumas que servem como preconceitos e obstáculos. Também adicionamos pratos favoritos, viagens que deixamos de fazer e filmes que teremos que ver com outras pessoas. Tudo que sempre coube perfeitamente entre nós se expandiu. Ganhou corpo e proporções próprias, até que parou de nos pertencer. Em vez de ficar rodeando o espaço entre nós, começou a bloquear a vista que tínhamos um do outro, até impedir que víssemos além do que juntamos. Uma pilha de tralhas, que nunca nos desfizemos por medo de um dia sentirmos falta. Dois palmos. Uma fortaleza não precisaria de mais espaço do que isso se tivesse sido construída por nós. É tudo uma questão de referencial. Para os medrosos, esta distância vai ser sempre uma grande proximidade. Mas pra nós que nunca ficamos separados por mais de um milímetro, dois palmos é uma distância que nunca mais teremos energias para percorrer de volta.
