1/25/2007

SOM DA RUA

Quis ser escutada, mas estava muito rouca para gritar. Conseqüência de uma noite mal dormida no silêncio do fundo do poço. Desligou o rádio para esquecer das velhas histórias que as músicas sempre fazem lembrar. Religou. Preferiu viver com as histórias passadas do que com as latentes.
Virou uma garrafa na esperança de ver em seu fundo uma solução. Em vez disso, viu tudo dobrado. Menos o que procurava. A iluminação da embriaguez deu a nítida sensação de que nada no mundo que tivesse lhe acontecido pudesse ser pior do que a ressaca do dia seguinte. Mas ela sobreviveria, como sempre. Nada como uma noite mal dormida para curar seus problemas.
Outro gole. Melhor do que a dor física, só a ressaca moral do dia seguinte. Lembrar de momentos vergonhosos tiraria a importância de todas as essencialidades de sua vida, desde aquelas que sempre julgara fundamentais para a formação de sua alma. Formação de quem? Outro trago para esquecer que já havia tido uma alma só sua, 0 km. Já não lembrava mais de como ela era. Desde os tempos em que sua memória existe, sempre havia sido a sombra de outros, buscando refletir tudo que gostaria de ser.
Como dizia sua avó, “o que arde cura”. Aquela cachaça definitivamente ardia ao descer. Bom sinal. Tomar mais uma pra garantir. Já não sentia quase nada. “Vovó sempre está certa”. Nada como a sabedoria de uma vida vivida. Os efeitos colaterais seriam muitos, mas ao perder a consciência o sintoma principal estaria curado. Pensar. Pelo menos por algumas horas, esquecer de tudo. Com sorte, também esqueceria daquela noite ao acordar com uma boa amnésia alcoólica. Pelo menos seria menos uma história que iria querer esquecer junto de tantas outras.