4/26/2006

A UM PULO

Quando criança, fui acostumada a nadar somente no lava-pé. E mais: com boinhas de braço. Não que eu gostasse, mas era isso ou fritar de calor com os adultos que não queriam desmanchar seus penteados.
Muitos anos depois, longe do olhar excessivamente cauteloso de minha mãe, o estrago já estava feito. Enquanto os amiguinhos pulavam na piscina ensaiando seus mortais e piruetas, lá estava eu, descendo pela escadinha. Clima propício, verão e uma piscininha cheia de oportunidades. E eu lá, molhando só a pontinha do pé pra sentir a temperatura da água. A falta de propensão a correr riscos normalmente é o maior risco que corremos. E se a água estiver fria? E se bater aquela brisa que sempre bate nos fazendo acovardar? E se? E se?
Não. Agora quero pular do mais alto de todos os trampolins. Às vezes vou conseguir maravilhosos saltos ornamentais. Às vezes, a mais dolorida barrigada. Mas, seja como for, um bom mergulho sempre melhora o nosso dia.

4/25/2006

OUTRAS DOSES

A cada copo que virava, era sua história que virava junto. Sem noção, sem limites. A verdade é que o álcool o envergonhava. Principalmente no dia seguinte, após ir embora pelos ares depois de tudo que havia provocado, deixando apenas memórias obscuras de uma noite que não tinha certeza se havia existido. Tudo que havia sido feito ou dito, parecia impossível. Quis evaporar junto da substância etílica.
Mas teve que encarar a sóbria vida de caixa bancário, casado e com dois filhos. Gêmeos, ainda por cima. Se bem que muitas vezes não sabia se tinha gêmeos ou se estava sempre acostumado com a visão dobrada de bêbado. Mas as despesas no fim do mês confirmavam: gêmeos.
Voltar à rotina depois daquele porre seria o pior de seus castigos. Saques, pagamentos, TED, DOC, CPMF, blá, blá, blá. Era tudo muito comum pra quem acabara de ver a vida de uma forma tão alucinada. Cada carimbada dada burocraticamente, era como se estivesse carimbando a própria sentença de morte.
O mal-estar era normal. Já fazia parte do seu corpo, assim como a barriga de chope e a falta de cabelo. Mas o dia passou e começava a hora de esquecer tudo aquilo. E chegou uma, duas até virar várias doses, noites e histórias.

4/24/2006

AQUÉM DO HORIZONTE

Ela olhava para o mesmo ponto fixo todos os dias, o dia inteiro. Hipnotizada por uma escolha difícil de ser deixada de lado, atraente por ser tão conhecida. E via o resto da vida passar pela visão periférica. Sabia que ela estava lá. Mas nunca virava o olhar para conhecer melhor as outras formas, cores e movimentos que poderia ter ou ser. Não ousava. Estava imobilizada. Faltava clareza nos mesmos olhos que cismavam em não olhar.
Até o dia em que o alvo de sua atenção simplesmente se alterou. Assim, de repente, sem pedir licença nem dar explicação. Uma mudança pequena, mas que tomou conta de todo seu espaço. Uma mudança! Foi-se embora seu foco, sua forma de ver a vida, seus objetivos. Não sabia como nem pra onde olhar. Foi obrigada a abandonar tudo, procurar outro. Mas nenhum agrada. Nenhum é feito aquele, tão... conhecido.
“Até que a mudança não ficou tão ruim assim”, pensa a voz do conformismo. E volta pra ele, mais feliz do que nunca por ele ainda estar lá.

4/21/2006

BANAL

Levou um tiro no meio da rua. Uma bala perdida, que supostamente deveria encontrar um traficante, mas achou bem mais interessante atravessar o caminho e o corpo de um inocente. Era marido de Joana e pai de Rodrigo e Juliana. Todos que viram gritaram, correram, se esconderam. Mas ninguém lembrou de ligar para a polícia, ambulância ou qualquer coisa que o valha. Depois de horas de espera largado na calçada, o socorro chegou. Morreu na porta do hospital porque a fila da emergência estava grande. “O processo é lento”.

Com 74 anos, 3 filhos, 5 netos e um enfisema, sua aguardada aposentadoria finalmente estava chegando. Sonhou anos a fio com este momento. Tinha planos, inclusive dormir até tarde. No último dia de trabalho, ele finalmente descansou em paz. Para sempre. “O processo é lento”.

Estava no trânsito há duas horas. “A esta altura já estaria em Teresópolis se tivesse pegado a estrada”, pensou. Era hora do rush, mas ela só queria chegar em casa. No sinal, crianças faziam malabarismos pra sobreviver. Nada muito diferente do que ela costumava fazer no escritório. Mas agora isso era passado. Foi mandada embora semanas depois de anunciar sua gravidez. Não tinha carteira assinada. “Vou processar esses putos”. O aniversário de um ano do filho chegou. Sem festa. Sem presentes. Quase sem comida. “O processo é lento”.

Época de eleição. Escolheu o candidato a dedo, como sempre havia feito. Mas desta vez, sentiu que era diferente. Com um governante do povo, o país ia mudar. A injustiça, a pobreza e sua fome estavam com os dias contados. Acompanhou a apuração torcendo como se fosse seu time de coração jogando no Maraca lotado em final de campeonato. Quatro anos depois, a única mudança que sentiu foi a de que sua opinião não valia mais pra nada. Não votou. Perdeu o direito de ser cidadão. Mas e daí? Isso não ajuda mais em nada hoje em dia. “O processo é lento”.

4/20/2006

FORMIGAS URBANAS

Somos todos formigas. Trabalhando o dia inteiro para conseguir tirar uma folguinha uma vez por ano. Formigas das operárias, que não têm direito a nada. Só a trabalhar sem reclamar. Afinal, formigas não falam. A cada fim de semana tentamos descansar, mas o fim de mês está chegando e, para conseguir descansar no início do mês seguinte, é bom trabalhar. Mas você trabalha e mesmo assim o mês começa e nada muda.
Você sabia que formigas carregam até dez vezes o tamanho delas? Claro que sabe. Todo mundo sabe. Não é só porque não saímos carregando folhas de 500Kg nas costas que você acha que isso também não acontece conosco. Só que o peso é a responsabilidade. Já que a diferença entre homens e o resto dos animais é poder pensar; pensa, desgraçado. E o peso é outro. Você é capaz de fazer o trabalho de três. “Cortes de orçamento”. Mas olha o lado bom: não é você que está na rua. “Eu sou a formiga atômica. Por favor, me dê o trabalho de 20, mas não me mande embora”. Tudo para fazermos nossa casinha de merda, numa sociedadezinha igualmente classificada. E assim seguimos, com nossas rainhas mandando e desmandando enquanto morremos trabalhando. É, porque sua aposentadoria linda e divertida está juntinha do Papai-Noel: no incrível mundo da fantasia.
E a comunicação? Formigas seguem seu caminho, guiadas pelo sinal que a pioneira dá. Precisa falar mais? É só alguém que está por cima da carne seca dar seu recado pela tv, que todas as operárias otárias vão atrás. Olha só a moda. Olha os anos 80, que todos picham mas estavam lá. Operárias por não terem bom-senso de saber o que não se deve fazer. Você deve casar, ter filhinhos e ser feliz. Dane-se tudo isso. E se eu quiser morrer solteira e de filha ter só uma tartaruga, que não reclama, chora ou tem condições de ir embora quando cresce, deixando você abandonado. Tá, é a vida. Mas não é a que eu quero e ponto.
Quer ver mais uma? Quando você está no caminho de alguém, tentam te esmagar sem nem pensar que ali jaz uma vida. Você já esmagou uma formiga? E sentiu algum remorso ou culpa? Acho que não. Ninguém pensa que a coitada da formiga só está ali vivendo. E só. Mas também é uma vidinha. Como a nossa. Vida de formiga.
De agora em diante, assumo um compromisso. Só mato formiga em casos de extrema necessidade. Ou quando elas se aproximarem de mim. Porque formigas têm mais uma grande semelhança com as pessoas: são um pé no saco.

4/19/2006

PRAZERES DA CARNE

Sou vegetariana desde criancinha. Só não havia descoberto ainda. Culpa da sociedade, que não orienta desde cedo para esta opção. E culpa da minha bisavó, que fazia uma carne moída que só de pensar, meu estômago fica triste.
Pense na maldade de uma churrascaria. Mais: pense na maldade de um espeto de coração de galinha. Quantas vidas foram sacrificadas para fazer um simples espetinho. O pior é quem ainda tem coragem de deixar no prato. Seria melhor pegar o que não comeu para colocá-lo no peito, bem no vácuo de seu coração humano. Pratos de camarão então, nem se fala. E tem gente que ainda se choca com a chacina da Candelária.
Tudo bem. Os carnívoros podem dizer que os animais levados para o abate são criados em cativeiro e que o objetivo de suas vidas é servir aos seres mais evoluídos. Mas isso todo mundo é. Não é por isso que saímos por aí, devorando asnos, bestas e cavalos. Ninguém pensa que eles têm vida própria. Até mesmo as espécies mais ignorantes, como Bush e Carla Peres, merecem que respeitemos seus direitos de viver e constituir família.
Por mais que eu não suporte verduras e não seja a maior fã dos legumes, nunca mais como nada que me lembre carne! Onde fica o Mc Donald’s mais perto?

4/17/2006

MEMORÁVEL

Nunca mais me apaixono por você. É sempre a mesma coisa. Você chega de repente, sentimentos te acompanham onde quer que eu esteja. E quando ficam sem opção, eles se escondem. Mas sempre deixam um rabo aparecendo, loucos para darem as caras ao primeiro sinal de sua voz. E depois voltam a se esconder em alguma gaveta aqui dentro. Aqui mesmo no meu quarto. Aquela gaveta que tremo só de chegar perto. A mais bagunçada de todas. A que esconde fotos, imagens, roupas, pensamentos, livros, cheiros, bilhetes e emoções.
Pois saiba que, para demonstrar minha vontade de terminar de vez, devolvo tudo que te pertence. Tudo que ficou por aqui, debochando da minha ingenuidade de guardar objetos pensando que com isso, guardo você também. Encho uma caixa inteira com o que me lembra você. Rasgo fotos e me rasgo também por dentro. Mas tem uma coisa que me recuso a devolver: as lembranças. Não devolvo todas as nossas histórias. Nem se quisesse, conseguiria tomá-las de mim. Elas são tão minhas quanto suas e estão muito bem guardadas, longe de todos. Às vezes até mesmo longe de mim. Represento riscos a elas quando quero alterar nossa história pra te esquecer. Risco de levar desconfianças, raiva. Mudar coisas simples por capricho, orgulho.
Vamos fazer o seguinte: como em toda união por comunhão total de momentos, eu fico com os meus, você fica com os seus. Eles são diferentes. Até os momentos iguais trazem recordações diferentes para cada um que os viveu. Pois eu vivi com você, mas vivi da minha forma. Então volto a repetir: não devolvo. E tenho certeza que, em algum lugar ou em alguma de suas gavetas, você ainda guarda as suas também. Não podem ser jogadas fora em qualquer lugar. Mas espero que você não as recicle, lavando as lembranças antigas com novas das quais não vou poder participar.
Digo e reafirmo: não me apaixono mais por você. Pelo menos até chegar aí pra entregar a caixa com tudo que juntei. Mas confesso: esqueci junto das minhas memórias, algumas camisas para poder voltar mais uma vez. Ou duas. Ou três.

TEORIA CABEÇA

Eu tenho uma teoria. Cabeça, sexo, espírito e personalidade. Como uma peça de quebra-cabeças com 4 encaixes, assim somos nós. Cada um com seu encaixe perfeito.
Em baixo da peça, tem aquela pessoa com a qual nos damos maravilhosamente bem na cama. Encaixe perfeito. Estes são os melhores amantes. Mas para isso, é preciso que não haja qualquer um dos outros envolvimentos. Emoção sempre atrapalha tudo.
Do outro lado da peça, logo acima, tem aqueles que combinam direitinho com nossa cabeça. Ideais, opiniões, planos. São aquelas pessoas que podemos conversar por horas a fio, se tornam melhores amigos e ótimos pra conversar quando queremos estar sempre certos. Mas é melhor ficar na amizade. Estar certo o tempo todo também ninguém agüenta.
À direita, está também o espírito. Sabe aquela pessoa que você bate de primeira? Nem precisa conversar que já vai com a cara. O termo mais conhecido é “o santo bateu”. Pode originar amor à primeira vista, grandes amizades ou grandes decepções (quando vemos que estamos completamente errados).
Por último (mas não menos importante), está a personalidade. Aquela pessoa que nem sempre concordamos, mas que tem um temperamento que completa direitinho o seu. Sabe te acalmar quando você está bravo, sabe te agitar quando você está demasiadamente calmo. Ou seja, aquela pessoa que sempre faz você se sentir como deve se sentir em cada momento. A melhor de todas.
O problema é que está tão difícil arrumar uma pessoa que seja o encaixe perfeito pra qualquer dessas áreas, que vira quase impossível arrumar uma que se encaixe a todas. O melhor mesmo é ser aquela peça do canto, a primeira que você sempre tenta encaixar porque só tem dois espaços mesmo. Mas mesmo assim, dois é mais que um. Aí pensei numa utilização prática para essa teoria pra ela não parecer só enrolação. Ela explica por que é tão difícil ser fiel. As pessoas buscam completar sua paisagem, preencher aquele espaço vazio. E mesma assim, sempre sobra outro espaço vazio.
Mas isso é só uma teoria. Só uma amostra de como funciona a minha cabeça. Se você não concorda, que pena. Pelo menos a peça da cabeça, a sua não encaixa com a minha.

NA CHUVA

De repente, sem pedir licença nem chances de defesa, um pensamento louco invadiu minha mente. Nele, estávamos só nós dois. Nada além. Nem árvore, chão, céu. Nem mesmo ar. Os detalhes se apagam, como foto antiga que perde a cor. E mesmo assim, tudo que eu poderia querer um dia, lá estava.
Todo o vocabulário do mundo ficou desnecessário. As palavras não faziam mais sentido, já que o corpo dizia tudo. Num toque, num gesto, ou simplesmente em não fazer nada. Só o que guardei foi um relógio. Queria contar cada segundo que estivéssemos lá, como casais que contam seus meses. Só pra me vangloriar de que fui capaz de merecer cada um deles que estive ao seu lado.
Saber que existe mais no mundo pra mim não é problema. Sei que nada vai me distrair de você. O ruim é que não posso controlar o seu tempo, as suas distrações. Você pode parar de pensar o que eu penso, fazer o que eu imagino e sentir o que eu desejo.
Vai continuar maravilhado com o mundo ao seu redor. Querer agarrar a tudo e a todos. E assim vai esquecer de lembrar logo de mim e dos pensamentos que, por mais que estivessem o tempo todo só na minha cabeça, sempre foram completos demais pra nós dois.

Tá beleza?

Me disseram que o que meus olhos vêem, não é o mesmo que os seus vêem. O que é belo para mim, pode ser banal visto por outros olhos. Olhos que não têm a história, as saudades nem os desejos dos meus. Desejos estes que fazem minha alma se debruçar em suas janelas e investigar o mundo inteiro, à procura de um novo caminho.
A estética nasce marcada por seu realizador. Incube nela sua marca. Deixa de herança para o mundo sua visão e ideologia. E para sempre ela estará lá, dizendo a todos o que era pra ser e nunca foi. A ilusão sim, que é a melhor forma de procurar o verdadeiro belo. O seu belo. Pelo senso comum e por nossa cultura, criamos parâmetros que nos permitem avaliar o que consideramos beleza. Parâmetros que mudam com as épocas e com a exaustão. O que hoje é considerado novidade, perde sua beleza com o tempo e com sua banalização.
A verdadeira beleza é aquela que incomoda. Não desperta alívio, bem-estar aos olhos. Quem faz isso são as banalidades harmônicas. Não quero banalidades. Quero incômodo. Algo que me faça indagar que diabos é aquilo. Que levante questões em minha cabeça, já tão banalizada. Que provoque mal-estar e, principalmente, que me faça querer superar. Essa cadeia de sensações é que causa a verdadeira admiração de uma beleza. A beleza de estar vivo, de poder olhar em volta e ter todas as opções em suas mãos. As outras belezas são apenas objetos de decoração que ficam expostos para todo mundo, mas torcendo para serem observados por qualquer um.
Não sei quanto aos seus, mas os meus olhos andam bem abertos procurando este tipo de beleza. O difícil só está sendo encontrá-las. Mas tudo bem. Deve ser um daqueles velhos problemas de miopia.