4/21/2006

BANAL

Levou um tiro no meio da rua. Uma bala perdida, que supostamente deveria encontrar um traficante, mas achou bem mais interessante atravessar o caminho e o corpo de um inocente. Era marido de Joana e pai de Rodrigo e Juliana. Todos que viram gritaram, correram, se esconderam. Mas ninguém lembrou de ligar para a polícia, ambulância ou qualquer coisa que o valha. Depois de horas de espera largado na calçada, o socorro chegou. Morreu na porta do hospital porque a fila da emergência estava grande. “O processo é lento”.

Com 74 anos, 3 filhos, 5 netos e um enfisema, sua aguardada aposentadoria finalmente estava chegando. Sonhou anos a fio com este momento. Tinha planos, inclusive dormir até tarde. No último dia de trabalho, ele finalmente descansou em paz. Para sempre. “O processo é lento”.

Estava no trânsito há duas horas. “A esta altura já estaria em Teresópolis se tivesse pegado a estrada”, pensou. Era hora do rush, mas ela só queria chegar em casa. No sinal, crianças faziam malabarismos pra sobreviver. Nada muito diferente do que ela costumava fazer no escritório. Mas agora isso era passado. Foi mandada embora semanas depois de anunciar sua gravidez. Não tinha carteira assinada. “Vou processar esses putos”. O aniversário de um ano do filho chegou. Sem festa. Sem presentes. Quase sem comida. “O processo é lento”.

Época de eleição. Escolheu o candidato a dedo, como sempre havia feito. Mas desta vez, sentiu que era diferente. Com um governante do povo, o país ia mudar. A injustiça, a pobreza e sua fome estavam com os dias contados. Acompanhou a apuração torcendo como se fosse seu time de coração jogando no Maraca lotado em final de campeonato. Quatro anos depois, a única mudança que sentiu foi a de que sua opinião não valia mais pra nada. Não votou. Perdeu o direito de ser cidadão. Mas e daí? Isso não ajuda mais em nada hoje em dia. “O processo é lento”.