10/25/2006

SOBRE TUDO

A gente cansa, mas se levanta. Conhece mais, faz o mesmo, repete tudo e sempre ganha. Não sabe mais quando é o começo – se tem começo – e nunca quer enxergar o fim. Dose de realidade prescrita e assinada por doutor de botequim. O resultado é falta de sono, de vergonha na cara e excesso de tempo perdido. Tão perdido, que só vamos lembrar de procurar quando tudo acabar. Na hora do tchau, do juízo final, do fim do tempo e do jogo.

A gente sabe, mas insiste em não aprender. Se enche de medo, finge coragem, repete bobagem, faz tudo errado. Mas na hora de levar a nota, quer ser o melhor da turma, receber parabéns, tapinha nas costas e sair abanando o rabo. Todo mundo sabe e, mesmo assim, errar continua sendo humano. Quem sabe de verdade, sente saudade do tempo da ignorância. Do tempo de acreditar em Papai Noel e coelhinho da Páscoa. Bons tempos em que tudo é novo demais para conhecer saudade.

Invejo os ignorantes. O conhecimento é o caminho mais rápido para a merda. Não se sente o que não se tem noção. Ao contrário do que dizem por aí, conhecimento sempre é demais. Os burros são tão alegres porque nem percebem a própria estupidez. É inconseqüente sair espalhando informações importantes. Elas pegam como praga.

Pra que dizer quem roubou, quem pecou, quem traiu. A resposta certa é que todo mundo já fez de tudo e muitas vezes nem sentiu. Ou simplesmente não quis contar. Guardar segredo é uma virtude que merece ser respeitada. A sinceridade é uma puta falta de respeito.

10/10/2006

ESCURO

Acordava com o despertador e a claridade. Abrir os olhos era sempre uma agressão. Pobreza, infelicidade. Às favas com tudo. Sabia que não havia muito no seu dia que merecesse ser visto. Colocava os óculos escuros e mirava sua atenção para onde bem entendesse, livre de culpa ou pudor. Preferia usar seu poder para apreciar artes e paisagens. Na falta de opção, simplesmente fechava os olhos. Uma falta de visão comum aos que são dotados dela.

Às vezes acordava no meio da noite desesperada. A escuridão do quarto a fazia imaginar que havia ficado completamente cega. Medo de perder o livre arbítrio de usar sua visão quando bem entendesse. Nessas horas sentia saudades por não ter olhado melhor ao redor. Abria bem as pálpebras e procurava algum sinal de claridade. Catava tomadas ou fendas na cortina, na esperança de encontrar luz na rua. Não descansava até ver que estava enganada. Foi só um susto. Fechava os olhos, virava para o lado e dormia.