7/27/2006

FALTA

Já rodei o mundo ao contrário, voei pelos mares e andei pelo céu. Fui rainha, rei e bobo da corte. Entrei em labirintos, casas de espelhos, caí da roda gigante e fui parar de cabeça para baixo em montanhas russas. Já vi manchas azuis no mar vermelho e vermelhas no céu azul. Mudei de casa, roupa, cabelo, telefone, religião, personalidade, família, amigos, vocabulário, princípios, pessoas.

Nunca recebi uma carta.

Mantive o mesmo véu atrás de meus olhos e os mesmos olhos atrás de vários véus. Aprendi filosofia, psicologia, meteorologia, quiromancia. Andei pelas ruínas de outras épocas e me ausentei nas da atual. Aproveitei chances que eu mesma criei, desperdicei outras que foram criadas. Bebi café com Nietzche, cerveja com Nelson, água com Ghandi.

Nunca vi uma estrela cadente.

Enfrentei tempestades em caiaques. Escalei vulcões em erupção. Jantei com tribos canibais. Corri com leões. Fui rainha sem herdeiros. Morri de tédio com a parada do meu coração.

Nunca percebi que o que há de melhor sempre esteve perto demais para eu querer procurar.

7/25/2006

SEXO, DROGAS E ESTILO MUSICAL DA MODA

Peito inflado de orgulho e de silicone. A pose de cada corpo que vaga pelo ambiente ocupa todo o espaço antes destinado à personalidade. Carcaças vazias se equilibram em saltos agulhas. Uma habilidade que exigiu anos de estudo, mas a sensação de estar lá em cima é sempre recompensadora. Por mais bolhas que isso possa causar no fim da noite.

A hipocrisia toma o lugar da simpatia. A ambição vira desejo. O amor por uma pulseira de diamantes se transforma em casamento. Uma mulher ou dez amigos para cada cem mil dólares na conta bancária. Enterro cheio para fechar em grande estilo o último grande evento da sua vida vazia. Como os antigos faraós, prefere uma sepultura com riquezas do que o semblante agitado de quem tem uma boa história para contar.

Ninguém mostra o que é. Só querem ser cada vez mais, por mais que isso signifique ser bem menos. Mais magra, menos diversão. Mais bonita, menos risos. Mais dinheiro, menos liberdade.

Se produzem para não terem que produzir nada na vida. Ficam apenas perambulando entre as mesas. Não param para pensar em nada. Nem percebem que quando todos andam da mesma forma, ninguém sai do lugar.

7/08/2006

PRA QUEM, SENÃO VOCÊ?

Pare de se vangloriar. Esse texto não foi escrito especialmente para você. Da primeira até a última linha.
Nunca me faltou vontade de dizer tudo que eu desdisse. É essa mania de menina de esconder os segredos no diário que eu nunca perdi. Agora fica mais difícil falar, deixando minhas páginas expostas para que qualquer um possa folhear.
Não me entenda mal. Acho que não estou sabendo me expressar. É que, quando penso bem, esqueço de todo aquele texto que ensaiei tanto para decorar. Aquela cena perfeita que passei e repassei à exaustão na minha mente, vira um conto surrealista, de onde saio sem saber nem como entrei. Da mesma forma como até agora não sei como a nossa história começou. Não que tenha sido uma história, propriamente dita. Foi só um causo, desses que no máximo dão um dedo de prosa no botequim da esquina. Mas, se for contar mesmo, não dá nem uma página. É por isso que não escrevo sobre você. Sobre como nos conhecemos quase sem querer. Como nos envolvemos pelo excesso de querer. Como nos afastamos pela falta do querer.
Também nunca fui muito boa com datas. Não sei em que momento me apaixonei nem que te esqueci. Às vezes acho até que foi tudo ao mesmo tempo. Mas talvez não tenha sido em tempo nenhum. Esse velho hábito de trancar meus segredos. Acontece que, em algum momento no meio do caminho, perdi a chave, mantendo o mistério até pra mim mesma. A obra da minha vida nunca foi interessante ao ponto de me fazer decorar os diálogos e narrações.
Como prova de que não escrevo pensando em você, vou terminar esse texto bem de repente, como terminou a nossa história. E de trás pra frente, como fomos do fim ao início. Para deixar isso bem claro, nada melhor do que uma dedicatória para outras pessoas.
“Aos que nunca acreditaram no meu talento, aos que não ofereceram nenhuma ajuda ao longo do trabalho e, principalmente, a quem não teve paciência de chegar nem ao final para ler essa dedicatória”. Pensando bem, agora percebo que esse texto foi escrito do início ao fim para você. Pode se vangloriar.