CURTINHO
Abdiquei do direito de pensar por medo da ressaca causada pela insônia do momento seguinte. A partir de então, vivo com meus fragmentos. Pequenos pedaços de experiências que, juntas, formam a figura indecifrável que sou até pra mim mesma.
E sigo assim, tentando juntar mais peças para atuar, como num jogo de criança paciente. Só que, diferente desses seres que ainda têm a vida inteira pela frente, não sou muito escolada na arte de esperar. Desisto assim que a peça começa a não fazer sentido com as outras partes que estão guardadas numa caixa. Lembranças que mal conheço e pouco entendo.
Desde que comecei foi assim. O alívio imediato sempre me atraiu, cortando os problemas pela raiz enquanto deixava feridas escondidas sob uma superfície de casca grossa. Nada mais senti. Só que, quando a dor vai embora, deixamos de lembrar da sua causa. O alívio imediato é delicioso, mas não traz a cura. Com o tempo, o excesso de cortes acaba separando o que você foi do que você acabou se transformando. Uma forma desfragmentada e sem graça de vida.
Escrever autobiografia? Capítulos soltos que mais parecem piadas do que contos. A curta duração de meus eventos só mostra a falta de continuidade e paciência dos meus vários “eus” que se formaram. Uma personalidade para cada história. Um personagem para cada realidade. Tenho certeza de que nenhum deles aceitaria uma peça nova e perfeita surgindo entre eles. Eles teriam que admitir todas as suas falhas. Não. Uma peça longa e perfeita me faria jogar fora tudo que me transformou no que sou.
Se um prato se quebra, uma janela é estilhaçada pela bola de uma criança, o espelho se parte oferecendo sete anos de azar ou quando o santo de gesso se espatifa pelo chão: pego apenas um pedaço de cada e colo um no outro. Não necessariamente o melhor deles. Apenas a parte em que participei. É o meu mosaico mais imperfeito. Toda minha vida foi feita assim. Pedaços de pessoas que só tirei uma lasquinha.
Ando entre os cacos de histórias, me esforçando para separá-los de tudo que ainda vou encontrar. Com cuidado para eles não me cortarem ainda mais. Mas também cuidando para que as feridas nunca se esqueçam de quem as fez.
E sigo assim, tentando juntar mais peças para atuar, como num jogo de criança paciente. Só que, diferente desses seres que ainda têm a vida inteira pela frente, não sou muito escolada na arte de esperar. Desisto assim que a peça começa a não fazer sentido com as outras partes que estão guardadas numa caixa. Lembranças que mal conheço e pouco entendo.
Desde que comecei foi assim. O alívio imediato sempre me atraiu, cortando os problemas pela raiz enquanto deixava feridas escondidas sob uma superfície de casca grossa. Nada mais senti. Só que, quando a dor vai embora, deixamos de lembrar da sua causa. O alívio imediato é delicioso, mas não traz a cura. Com o tempo, o excesso de cortes acaba separando o que você foi do que você acabou se transformando. Uma forma desfragmentada e sem graça de vida.
Escrever autobiografia? Capítulos soltos que mais parecem piadas do que contos. A curta duração de meus eventos só mostra a falta de continuidade e paciência dos meus vários “eus” que se formaram. Uma personalidade para cada história. Um personagem para cada realidade. Tenho certeza de que nenhum deles aceitaria uma peça nova e perfeita surgindo entre eles. Eles teriam que admitir todas as suas falhas. Não. Uma peça longa e perfeita me faria jogar fora tudo que me transformou no que sou.
Se um prato se quebra, uma janela é estilhaçada pela bola de uma criança, o espelho se parte oferecendo sete anos de azar ou quando o santo de gesso se espatifa pelo chão: pego apenas um pedaço de cada e colo um no outro. Não necessariamente o melhor deles. Apenas a parte em que participei. É o meu mosaico mais imperfeito. Toda minha vida foi feita assim. Pedaços de pessoas que só tirei uma lasquinha.
Ando entre os cacos de histórias, me esforçando para separá-los de tudo que ainda vou encontrar. Com cuidado para eles não me cortarem ainda mais. Mas também cuidando para que as feridas nunca se esqueçam de quem as fez.

1 Comments:
Entre cacos e feridas, ressacas e insônias, a vida segue sua marcha destruidora e inexorável a lugar nenhum..
Parabéns pelo txt "curtinho", bjs, D.
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