11/04/2008

Obs.

O futuro chega a cada dia, depois de cada pedra que tiro do meu caminho e que coloco direto nesse muro que me protege do resto do mundo. Criei o meu protesto e a opressão, o pecado e a oração. E a vida vai acontecendo em paralelo com outras, se entrelaçando e desprendendo num vai-vem sem fim. Não são as mãos do destino. São as minhas mesmas, as únicas responsáveis por esses movimentos.
Nem sempre me transformo no que escolho. Mas com certeza sou o que construí a sós, a dois, a três, por todos. A cada escolha que deixei nas mãos dos outros ou da sorte, a cada espera com tom de omissão. Na verdade, quando chega a hora de pagar essa conta, não tem quem dê um desconto. É minha responsabilidade, numa espécie de autopunição que aos poucos é esquecida até que eu sinta vontade de fazer tudo de novo. Aquele erro que, como todo vício, sempre parece o certo e nos joga no pior lugar do mundo. Nessa hora fica tão óbvio que até perde o sentido.
Você voltou. Minha agonia te acompanhou. Juntos, nunca seremos bons o suficiente.

9/17/2007

SEM COMENTÁRIOS

O silêncio aproxima as pessoas. As tornam cúmplices da falta do que dizer. Nunca entendi o que as pessoas tinham contra ele. Inventaram a conversa de elevador, a discussão do relacionamento, o papo de botequim e até a lorota – pura falta do que dizer.
Deve ser por isso que o mundo anda tão barulhento. Muita gente falando ao mesmo tempo. Pode fechar os olhos e prestar atenção: trilhões de pessoas estão falando inutilidades neste momento. Ninguém percebe que, por mais esclarecedora que uma conversa possa ser, nossa imaginação é sempre bem mais divertida.
Silêncio não é omissão. É protesto. Não é descaso. É atenção. Apóio quem fala o que pensa. Mas, por favor, fale baixo para não incomodar o pensamento dos outros.

5/23/2007

PLANTA DE ESTAMPA

A rosa saiu da estampa florida
O mundo inteiro ao seu caule queria deixar
Largou as companheiras de textura sem despedida
Pra prisão do pano nunca mais voltar

Passou de mão em mão:
Crianças que brincavam
Adolescentes que amavam
Adultos que se desculpavam

Todos sem cuidado
Desatentos aos detalhes
Do espinho até o botão

Como nasceu, acabou debaixo da terra
Enterrada, semeada, adubada
Enfeite póstumo em caixão

No final, sempre retornamos às nossas origens.

5/15/2007

IMPREVISTO

De tanto correr, fui a que mais caiu no chão.
De tanto tropeçar, fui a que mais me estenderam a mão.
Sempre em busca de novos ares, sopros e direção.
Do outro lado da rua, se debruçando no meio-fio, ouvi um grito que seria para sempre a voz do meu silêncio. Me assustei ao perceber o quanto é fácil manter a indiferença ao sentimento alheio. Ter poder é estar perto alguém que dependa de você. Em uma época onde sempre nos sentimos por baixo, a sensação de superioridade de ajudar ou ignorar um pedido de ajuda é o máximo que muitos alcançarão na vida. E ainda se juntam em volta para saber mais detalhes sobre o sofrimento em primeira mão. Todos em silêncio. Se palavra é compromisso, qualquer comentário nessas horas pode ser comprometedor.
Quando outros caem, eu corro.
Quando outros levantam, não é a minha mão que encontram.
Aceitamos a omissão, o papel de passivo. Como se não fazer nada fosse inofensivo. Não fazer nada provavelmente é a pior coisa que alguém pode fazer.

4/28/2007

BOA NOITE

O alívio da luz que se apaga, da lágrima que corre solta, da falta de visão. Por algumas horas também não faz falta não ser visto. Simplesmente fechar os olhos e não se esquecer de respirar. O sonho que vai virar desejo. O desejo que virou sonho. A realidade fica para trás, esquecida por algum tempo. Simplesmente dou minha cabeça numa bandeja para minha imaginação e esqueço que ela existe. O sol aparece e o pesadelo recomeça. Mais um dia que chega sem ter sido chamado. Mais um dia que no futuro vou querer chamar, mas que não vai mais querer começar.

2/12/2007

VIDA INTEIRA VAZIA

Dona Sebastiana não sabia que a vida era feita de ilusão. 50 anos depois de nascer, continuava convivendo com a pura realidade para a qual aquele primeiro tapa na bunda a fez despertar. Sem grandes sonhos nem grandes decepções. Só o pacote básico do dia-a-dia.
Nunca conseguiu entender por que alguém fala sozinho ou faz pedidos às estrelas cadentes. Nunca havia visto uma, inclusive – talvez por nunca ter olhado para o céu o suficiente. Casou com um engenheiro. Projeto-construção sem dispersão.
Um dia seu marido foi comprar cigarro durante o Faustão. Nunca mais voltou. O mundo tão sólido de D. Sebastiana desmoronou. Cada tijolo parecia atingi-la por todo o corpo. Soterrada em planos fracassados e livre da barreira da realidade, se viu diante de todas as ilusões que sempre fez questão de desprezar.
Cortou os cabelos, aposentou as agulhas de tricô e foi em busca de tudo que nunca havia feito. Resolveu partir para as artes. Ninguém mais vive tão perto da ilusão. Começou pela música, mas não deu certo. Depois de uma vida inteira ao som das batucadas de um relógio, havia perdido completamente o ritmo. Tentou escrever. O romance é o auge da vida de ilusão. Cria-se tudo que você gostaria de ser, sem ter o trabalho de viver. Mas de tão acostumada aos livros de receita e revistas de fofoca, faltou experiência de vida até para inventar uma outra história.
Não desistiu. Artes plásticas, teatro, quiromancia, religião. Entre uma busca e outra, conheceu Batista, velho sambista da Portela. Músico, carnavalesco, pé-de-valsa, compositor e, acima de tudo, homem. Foi na paixão que D. Sebastiana conheceu a ilusão pela primeira vez. O tesão à primeira vista a transportou à ilusão cega do desejo. Um mundo novo, cheio de paisagens e personagens imaginários. Falas que nunca saíram da boca dele, mas que não saíam da cabeça dela. Ciúmes – irmã má da imaginação – planos de uma vida a dois, medo de uma vida a um. Por alguns meses conviveu com um homem que, apesar de ser de carne e osso, era pura imaginação.
Mas a verdadeira amplitude dessa vida nova ela só descobriu no dia em que Batista a trocou pela porta-bandeiras da Mangueira. Uma grande traição, principalmente por ele ser da Portela. Enquanto o mundo imaginário que ela havia criado caía sobre sua cabeça, percebeu que nada poderia doer mais. A desilusão parecia mais real do que tudo que já havia tocado.
Voltou para sua busca. Dentre as experiências que teve, preferiu a dor da ilusão. Só com ela D. Sebastiana soube o que era viver de verdade.

1/29/2007

Grito

O tempo não volta. Mesmo assim insisto em tentar voltar ao início. Àquele momento em que tudo o que eu queria era possível. Hoje eu vejo que não. Nunca foi. Agora mesmo que não voltará a ser. O lugar da despedida nunca vai ser o ponto de partida para o mesmo caminho. Naquele dia em que tudo terminou, eu comecei a ser tudo o que eu ainda não tinha sido para talvez voltarmos a ser o que éramos.
Impossível. Não quero mais ser partida nem chegada. A gente sempre começa querendo voltar e acaba chegando onde tudo termina. Quero o percurso. O mais longo, por favor. Aquele que já percorremos algumas vezes, mas que sempre esqueço o caminho de volta de tão cega que estava quando por ele passamos. Sempre quero voltar, mas nunca quero retroceder. Medo de avançar. Medo de morrer. Medo de ter matado meu tempo com sentimentos imaginários. Nunca pensei que fosse tê-los. Logo eu, que nunca me afastei por mais de três palmos da realidade.
Procuro alguém que me leve pra onde eu nasci. Poder ter coragem de gritar, chorar e espernear para sobreviver. Hoje me calo para ver se consigo silenciar todos os sentimentos fortes que envolvem a existência.
O mundo dá voltas. Mas quem vive em sua superfície só ganha com isso os dias e as noites. Os caminhos da vida não têm nada a ver com isso. Nosso tempo acabou. A linha de chegada apareceu e você a cruzou bem antes. Parabéns, campeão.