VIDA INTEIRA VAZIA
Dona Sebastiana não sabia que a vida era feita de ilusão. 50 anos depois de nascer, continuava convivendo com a pura realidade para a qual aquele primeiro tapa na bunda a fez despertar. Sem grandes sonhos nem grandes decepções. Só o pacote básico do dia-a-dia.
Nunca conseguiu entender por que alguém fala sozinho ou faz pedidos às estrelas cadentes. Nunca havia visto uma, inclusive – talvez por nunca ter olhado para o céu o suficiente. Casou com um engenheiro. Projeto-construção sem dispersão.
Um dia seu marido foi comprar cigarro durante o Faustão. Nunca mais voltou. O mundo tão sólido de D. Sebastiana desmoronou. Cada tijolo parecia atingi-la por todo o corpo. Soterrada em planos fracassados e livre da barreira da realidade, se viu diante de todas as ilusões que sempre fez questão de desprezar.
Cortou os cabelos, aposentou as agulhas de tricô e foi em busca de tudo que nunca havia feito. Resolveu partir para as artes. Ninguém mais vive tão perto da ilusão. Começou pela música, mas não deu certo. Depois de uma vida inteira ao som das batucadas de um relógio, havia perdido completamente o ritmo. Tentou escrever. O romance é o auge da vida de ilusão. Cria-se tudo que você gostaria de ser, sem ter o trabalho de viver. Mas de tão acostumada aos livros de receita e revistas de fofoca, faltou experiência de vida até para inventar uma outra história.
Não desistiu. Artes plásticas, teatro, quiromancia, religião. Entre uma busca e outra, conheceu Batista, velho sambista da Portela. Músico, carnavalesco, pé-de-valsa, compositor e, acima de tudo, homem. Foi na paixão que D. Sebastiana conheceu a ilusão pela primeira vez. O tesão à primeira vista a transportou à ilusão cega do desejo. Um mundo novo, cheio de paisagens e personagens imaginários. Falas que nunca saíram da boca dele, mas que não saíam da cabeça dela. Ciúmes – irmã má da imaginação – planos de uma vida a dois, medo de uma vida a um. Por alguns meses conviveu com um homem que, apesar de ser de carne e osso, era pura imaginação.
Mas a verdadeira amplitude dessa vida nova ela só descobriu no dia em que Batista a trocou pela porta-bandeiras da Mangueira. Uma grande traição, principalmente por ele ser da Portela. Enquanto o mundo imaginário que ela havia criado caía sobre sua cabeça, percebeu que nada poderia doer mais. A desilusão parecia mais real do que tudo que já havia tocado.
Voltou para sua busca. Dentre as experiências que teve, preferiu a dor da ilusão. Só com ela D. Sebastiana soube o que era viver de verdade.
Nunca conseguiu entender por que alguém fala sozinho ou faz pedidos às estrelas cadentes. Nunca havia visto uma, inclusive – talvez por nunca ter olhado para o céu o suficiente. Casou com um engenheiro. Projeto-construção sem dispersão.
Um dia seu marido foi comprar cigarro durante o Faustão. Nunca mais voltou. O mundo tão sólido de D. Sebastiana desmoronou. Cada tijolo parecia atingi-la por todo o corpo. Soterrada em planos fracassados e livre da barreira da realidade, se viu diante de todas as ilusões que sempre fez questão de desprezar.
Cortou os cabelos, aposentou as agulhas de tricô e foi em busca de tudo que nunca havia feito. Resolveu partir para as artes. Ninguém mais vive tão perto da ilusão. Começou pela música, mas não deu certo. Depois de uma vida inteira ao som das batucadas de um relógio, havia perdido completamente o ritmo. Tentou escrever. O romance é o auge da vida de ilusão. Cria-se tudo que você gostaria de ser, sem ter o trabalho de viver. Mas de tão acostumada aos livros de receita e revistas de fofoca, faltou experiência de vida até para inventar uma outra história.
Não desistiu. Artes plásticas, teatro, quiromancia, religião. Entre uma busca e outra, conheceu Batista, velho sambista da Portela. Músico, carnavalesco, pé-de-valsa, compositor e, acima de tudo, homem. Foi na paixão que D. Sebastiana conheceu a ilusão pela primeira vez. O tesão à primeira vista a transportou à ilusão cega do desejo. Um mundo novo, cheio de paisagens e personagens imaginários. Falas que nunca saíram da boca dele, mas que não saíam da cabeça dela. Ciúmes – irmã má da imaginação – planos de uma vida a dois, medo de uma vida a um. Por alguns meses conviveu com um homem que, apesar de ser de carne e osso, era pura imaginação.
Mas a verdadeira amplitude dessa vida nova ela só descobriu no dia em que Batista a trocou pela porta-bandeiras da Mangueira. Uma grande traição, principalmente por ele ser da Portela. Enquanto o mundo imaginário que ela havia criado caía sobre sua cabeça, percebeu que nada poderia doer mais. A desilusão parecia mais real do que tudo que já havia tocado.
Voltou para sua busca. Dentre as experiências que teve, preferiu a dor da ilusão. Só com ela D. Sebastiana soube o que era viver de verdade.
