1/29/2007

Grito

O tempo não volta. Mesmo assim insisto em tentar voltar ao início. Àquele momento em que tudo o que eu queria era possível. Hoje eu vejo que não. Nunca foi. Agora mesmo que não voltará a ser. O lugar da despedida nunca vai ser o ponto de partida para o mesmo caminho. Naquele dia em que tudo terminou, eu comecei a ser tudo o que eu ainda não tinha sido para talvez voltarmos a ser o que éramos.
Impossível. Não quero mais ser partida nem chegada. A gente sempre começa querendo voltar e acaba chegando onde tudo termina. Quero o percurso. O mais longo, por favor. Aquele que já percorremos algumas vezes, mas que sempre esqueço o caminho de volta de tão cega que estava quando por ele passamos. Sempre quero voltar, mas nunca quero retroceder. Medo de avançar. Medo de morrer. Medo de ter matado meu tempo com sentimentos imaginários. Nunca pensei que fosse tê-los. Logo eu, que nunca me afastei por mais de três palmos da realidade.
Procuro alguém que me leve pra onde eu nasci. Poder ter coragem de gritar, chorar e espernear para sobreviver. Hoje me calo para ver se consigo silenciar todos os sentimentos fortes que envolvem a existência.
O mundo dá voltas. Mas quem vive em sua superfície só ganha com isso os dias e as noites. Os caminhos da vida não têm nada a ver com isso. Nosso tempo acabou. A linha de chegada apareceu e você a cruzou bem antes. Parabéns, campeão.

1/25/2007

SOM DA RUA

Quis ser escutada, mas estava muito rouca para gritar. Conseqüência de uma noite mal dormida no silêncio do fundo do poço. Desligou o rádio para esquecer das velhas histórias que as músicas sempre fazem lembrar. Religou. Preferiu viver com as histórias passadas do que com as latentes.
Virou uma garrafa na esperança de ver em seu fundo uma solução. Em vez disso, viu tudo dobrado. Menos o que procurava. A iluminação da embriaguez deu a nítida sensação de que nada no mundo que tivesse lhe acontecido pudesse ser pior do que a ressaca do dia seguinte. Mas ela sobreviveria, como sempre. Nada como uma noite mal dormida para curar seus problemas.
Outro gole. Melhor do que a dor física, só a ressaca moral do dia seguinte. Lembrar de momentos vergonhosos tiraria a importância de todas as essencialidades de sua vida, desde aquelas que sempre julgara fundamentais para a formação de sua alma. Formação de quem? Outro trago para esquecer que já havia tido uma alma só sua, 0 km. Já não lembrava mais de como ela era. Desde os tempos em que sua memória existe, sempre havia sido a sombra de outros, buscando refletir tudo que gostaria de ser.
Como dizia sua avó, “o que arde cura”. Aquela cachaça definitivamente ardia ao descer. Bom sinal. Tomar mais uma pra garantir. Já não sentia quase nada. “Vovó sempre está certa”. Nada como a sabedoria de uma vida vivida. Os efeitos colaterais seriam muitos, mas ao perder a consciência o sintoma principal estaria curado. Pensar. Pelo menos por algumas horas, esquecer de tudo. Com sorte, também esqueceria daquela noite ao acordar com uma boa amnésia alcoólica. Pelo menos seria menos uma história que iria querer esquecer junto de tantas outras.