12/30/2006

INTERVENÇÃO

- Por que você não me conta como essa história começou?
- Nem toda história precisa ter um começo. E também não sei de qual história você está falando.
- O que aconteceu para você ter esses pensamentos?
(Pausa)
- Simples. As idéias, comecei a ter assim que respirei sem o corpo da minha mãe. No primeiro tapa na bunda que aquele médico me deu, já pensei e cheguei à conclusão que tudo que tinha pra fazer devido ao meu tamanho, era chorar. Mas essa parte eu não conto porque ninguém pode provar. O que eu queria dizer é que essas idéias sempre existiram. Até quando resolvi tê-las foi uma idéia. A primeira foi a segunda, na verdade.
- Você está mudando de assunto e se confundindo. Vou mudar de abordagem. A pergunta é: quando você começou a se perder nessas idéias?
- Como em toda guerra, nenhum lado é unanimamente bom ou mau. O que sabemos são só as versões. Esse seu “me perder” pode ter sido a forma que encontrei de me procurar. A minha versão é esta. Não acho que mereço a forca por isso. Ou pior: a camisa de força.
- Ninguém aqui está te julgando. Só queremos entender para ajudar.
- Mas se vocês não fazem idéia de como penso, como podem pensar sobre as minhas idéias? O importante é que sempre as tive. Não que por isso sejam confiáveis, já que elas vivem mudando independentemente da minha vontade. Mas eu sei que mudam livremente porque não tento entendê-las, e sim aceitá-las. Se eu que vivo com elas consigo fazer isso, por que é tão difícil para o resto do mundo? Idéia é feito partes íntimas. Cada um tem a sua, mas ninguém mexe na dos outros sem permissão.
- Está vendo? É desse tipo de idéias que eu estava falando. E essas atitudes?
- Minhas atitudes só dizem respeito às minhas idéias. São uma reação. Muito melhor do que as suas, que dizem respeito às idéias dos outros. Feito agora mesmo. Que tipo de atitude é essa de querer mudar a cabeça dos outros? Isso sim não faz a menor coerência. Se hoje eu estiver com a idéia de ser Carmem Miranda, serei Carmem Miranda e ninguém vai poder ser por mim. Mas se a idéia estiver na sua cabeça, quem sou eu pra ser Carmem Miranda?
- Você não acha que essas atitudes não condizem com a vida em sociedade?
- A vida em sociedade só vale a pena se cada um mantiver a sua individualidade. Seria muito sem graça se todos fossem normais como mandam os seus livros médicos. Todo mundo precisa de um louco pra se manter – ou sentir – são.
- Então você acha que na verdade está cumprindo seu papel na sociedade?
- Os grandes descobridores são loucos varridos. Ter visão é ter um pouco da insanidade necessária para ver além do normal. Esse papo de Terra redonda há séculos atrás era a maior loucura, certo?
- Ok. Continue a pensar assim. Vou manter o tratamento. Ou você muda de idéia, ou eu mudo de profissão. Não entra na sua cabeça tão cheia de idéias que só queremos te poupar o sofrimento?
- Idéias sempre correm o risco de nos dar sofrimento. É por isso que elas são tão impressionantes. Podem no levantar ou nos jogar abismo abaixo. Mas as mais perigosas são as que reprimimos em nossas cabeças. São elas que ficam se revirando no sangue, se misturando a todas as nossas células e ocupando nosso tempo. Se para você sanidade é isso, sinto muito, Doutor, mas acho que o senhor vai ter trabalho para uma vida inteira. Pelo menos a minha. Essa é a esperança que ainda guardo nessas paredes verdes. A propósito, esperança também é uma idéia. Uma das melhores.

12/04/2006

A CAMINHO

Entre as nuvens e as estrelas, olho para baixo e vejo a camada de dúvidas que sempre encobriram minha realidade. Olho para cima e vejo um espaço infinito que um dia quero alcançar mas que, de tão grande, sempre me desanimou. Surge a dúvida. Ou me jogo, torcendo para que a gravidade da situação me leve lá pra cima; ou me deixo cair com todo o peso de minha consciência para ver se ultrapasso as nuvens e me esborracho na minha realidade. A única certeza é de que aqui não posso mais ficar. Atingir o chão pode doer. Subir para as estrelas tira o ar. As luzes de cima mostram mapas para tudo que quero ter. As de baixo, de tudo que não quero ser. É aí que a aeromoça oferece refrigerante com amendoim e o piloto anuncia turbulência. Fecho os olhos e deixo que eles decidam por mim. Por enquanto, uma Coca Light, por favor.

12/02/2006

QUANDO CHEGA O PARA SEMPRE

Levei um susto enorme ao ver seu sorriso no meu rosto. Um dos inúmeros que lembro. Era aquele de quando você esparramava simpatia ao mesmo tempo em que trincava os dentes e desdizia os próprios lábios. Um dos meus favoritos. Foi exatamente este sorriso que estava em mim. Eu poderia moldá-lo com massinha, se necessário, mesmo depois de todos esses anos sem vê-lo.

É verdade quando dizem que adotamos os hábitos das pessoas mais próximas. Não foi genética. Foi só convivência mesmo. Já nem sei mais o que é de quem. Nunca soube nem o que era meu antes de você. Surgimos ao mesmo tempo. Fica difícil reconhecer a própria individualidade com tanta proximidade.

É estranho que depois das brincadeiras terem acabado, das nossas grandes descobertas terem ficado ridículas e de todos esses anos que passamos longe, seus hábitos nunca tenham se afastado. Colecionei vários outros, um a cada esquina. Mas são os seus gestos, tiques e jeitos que continuo repetindo.

Não estou reclamando. Pelo contrário. Fico feliz por a gente se encontrar tanto em mim. Só que no final das contas é no seu rosto que sinto falta de dar de cara com seu sorriso. Enquanto isso não acontecer, vou seguir rindo. É assim que divido com você os momentos de felicidade com seu sorriso bobo e os menos felizes com seu sorriso de consolo.